Às vias de uma nova idéia do “enxergar”, tenho tido a oportunidade diária de perceber o quanto a cegueira está próxima do mundo. Saramago tentou mostrar isso à sua maneira e a impressão que tenho é que, mesmo na quarta-feira sem a miopia e o astigmatismo, eu ainda vivenciarei intermináveis instantes de escuridão total. Agora ouço uma interpretação da pianista Guiomar Novaes de uma peça de Chopin e acabei de ouvir falar nela, mesmo amando piano desde pequena. A busca de uma idéia concreta daquilo que se vê é, provavelmente, das maiores provas de como perdemos tempo nessa vida. Mostrar-se, ver-se através dos olhos do outro, esse outro já não nós, já vindo de outra experiência estética, sensorial, sentimental, política, cultural, econômica e por que não dizer, tantas vezes tão desprovida da capacidade de sentir como o meu olho sente e acha que vê, como meu sentimento me diz ser “sensato”. Então nos ferimos dia a dia na expectativa de receber de volta ou aquilo que enviamos ou o que imaginamos merecer. Citando a citação, no filme Santiago, João Moreira Salles mostra um impressionante trecho do filme Viagem a Tóquio do cineasta japonês Yasujiro Ozu. Nele, a filha caçula pergunta: “a vida não é uma decepção?”, ao passo que sua cunhada - de acordo com Salles – “com um sorriso franco e generoso” responde “sim”. Em entrevista à revista Bravo!, Salles diz que “a inteligência é encontrar o júbilo de um sorriso diante do que não se pode evitar.”
Importante de se buscar, isso.
Tenho me deparado diariamente com o que não posso evitar e que idiotice essa a de achar-se capaz de mudar algo além de si mesmo. Chega o dia, amanhece e lá estão as pessoas seguindo seus caminhos, a maioria delas tão intencionalmente vedadas do olhar. Acreditando firmemente que os valores estão naquilo que é, de fato, efêmero. Todos nós o somos, a finitude é uma coisa que, mais dia, menos dia, terei de enfrentar ou ao menos tentar compreender. Mas existem efemeridades outras (e falo por mim, num trato assumidamente subjetivo da existência alheia, o que certamente pode ser lido como arrogância, mas permitir-me-ei um pouco dela) que definitivamente não compreendo ou estou um pouco imaturamente longe de pragmatizar.
Tenho apenas 28 anos. Alguns poderiam dizer “você já tem 28 anos”, etc e tal. A interpretação tem ficado cada dia mais um, cada dia mais individualista e as pessoas parecem querer saber somente para si mesmas, já que o outro, além de “cego”, tem optado também pela surdez. E nesses 28 anos já experimentei algumas coisas que gostaria não tivessem acontecido nem comigo nem com ninguém, mas sei estar ainda tão longe e provavelmente eternamente (nessa noção restritiva do eterno) distante da compreensão de determinadas irreversibilidades.
Gostaria de sentar-me num lugar, trazer algumas pessoas ao chão e todos nos silenciarmos para ouvir esta peça que ouço agora pela terceira vez. De olhos fechados, de preferência. Mas compreendo que a grande maioria das pessoas jamais aceitaria isso. E nem posso dizer que isso sou eu ou que é alguém. Falo de um sonho, permito-me uma divagação dos últimos dias em que abrirei os olhos e verei embaçado. Tenho medo do que verei daqui em diante, pois desde os oito anos não sei o que é enxergar (nessa noção restritiva do ver) o meu redor na primeira vez no dia em que abro os olhos.
E a frustração diária de perceber que não poderemos jamais mudar determinadas coisas, pois a capacidade de fazê-lo daria ao outro o mesmo poder, o que poderia, eventualmente, criar e recriar diversos universos e noções de realidade e certeza que nos pareceriam corretas.
E, ainda míope e astigmata (?), astigmatizada (??), digo a mim mesma: tenha PACIÊNCIA, moça. Hoje acredito que somente a paciência é capaz de nos acalmar diante não somente da finitude, mas da impossibilidade de ver no outro um pouco daquilo que se pensa belo de si, de seu coração e da idéia de um mundo ideal.
Chopin, CINEMA, arte, chuva... muitos passarão a vida sem sequer desejar olhar para isso e fechar os olhos, reabri-los e deixar que surja um outro si, ir a um outro lugar diferente dessa estagnação privativa que os meios de comunicação, a indústria cultural e o comodismo diante do pensar trouxeram para o mundo. Se é que não estiveram aqui desde sempre, mas isso já é outra história.
Paciência, menina.
A vida é uma decepção se criarmos fantasias em torno daquilo que – parafraseando – não se pode evitar.
Espero nos próximos dias conseguir lembrar-me disso.
As meias? São as de calçar, sim. É porque eu as adoro.
28 setembro, 2008
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