Da morte à vida, numa idéia-vontade de comer o mundo. Mastigando devagar para ver se dá tempo de perceber a nuance de cada sabor, dissabor, delírio, nudez e calor, sentou à beira da janela e olhou profundo, intenso, fixamente para baixo, para um lado, para o outro, para cima, para frente. Notou coisas imensas, umas bobas, outras não, umas efêmeras, outras não. Morando num meio-do-caminho entre o antigo, o clássico e o contemporâneo (partindo do pressuposto que aqui cabe esta denominação), percebeu como de repente comer a vida poderia ter sentido. Comê-la, deglutir vagarosamente cada bela palavra já escrita, cada plano filmado, cada estranho gesto de carinho. E notou que talvez a pieguice se aproximasse e esta fosse a mais clicheresca expressão da alegria-express da qual já experimentara dissabores. De toda forma, pensou ainda um tanto mais em como determinadas frases-chavão e filosofias de auto-ajuda (não decorei as – detestáveis – novas regras gramaticais) não incomodavam aquele humor flutuante que – melhor aproveitar – estava em boa fase. Passou as mãos em suas mãos, como se de repente fossem quatro delas, os instintos se elevassem e as sensações pudessem ir a um outro nível. Sentiu saudade e ligou pra dizer: “saudade”. Ele respondeu, exausto: “eu também”. Nessa correria toda a vida passa e esquecemos de comê-la devagar. Disseram-me certa vez para largar o garfo a cada garfada, contar até 20 e então engolir. Deu certo por um tempo e depois o garfo lá grudado de novo e dá-lhe almoços de 20 segundos para um prato inteiro. Não, não saí de um negro depressivo para um amarelo-alegria-total. Apenas deu vontade de mudar um pouco o panorama deste espaço já retrógrado, já démodé, já pra lá de Bagdá e melhor parar enquanto não se estraga de vez uma confluência desconexa de palavras. Embriagar-me-ei do comer a vida enquanto dá tempo. Nas engolidas apressadas, nos devaneios sem sentido, nas hipertrofias de sentimentos, no aguardo de não deixar de dizer um dia sequer que se hoje quero comer a vida é porque você faz parte dela.
29 abril, 2009
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Um comentário:
Obrigado, meu bem... já entrei aqui e li essa lindeza alguma vezes: e em quase todas abri esse quadradinho e fiquei olhando sem saber ao certo o que escrever. Você e seu talento fazem isso com a gente. No caso, comigo. Enfim, especialmente hoje quis deixar isso registrado. Um beijo e muito amor, sempre.
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