Livrar-se da primeira pessoa, seria, talvez, o primeiro passo. Nessa sensação esquisita de dizer sempre as mesmas palavras, da mesma forma, como se além da forma e do texto e da leitura e aprendizado, persistisse uma idéia recorrente de um ser imutável..
Mergulhar nas profundezas do fim do poço. Encarar o espelho.
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Estou forçando um bom texto. Não há.
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Deusdete acordava todos os dias com ou sem o choro do neném. Pela janela do barracão, um bando de prédios amontoados. Ela tinha seu varal e dois tomates no jardim. No almoço de ontem comeu sozinha, desligou a tv, o menino estava dormindo. Existe Deus. Está, ao menos, em seu nome.
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Péricles Júnior jogava meus lápis de cera no chão, meus salgadinhos, o que quer que eu segurasse. Eu chorava. Péricles ria. Jamais passou pela minha cabeça questionar como um Péricles poderia rir-se de mim. Seus cabelos eram bem negros, lisos, rostinho de menino que, no fundo, no fundo, subia no colo da mãe de medo de barata. Não sei se preferia Nescau ou Toddy. Eu prefiro Toddy, sem sombra de dúvida.
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De novo a primeira pessoa. Pessoa primeira seria a do ventre? Saí, a contragosto. Ando executando peripécias internas e estrondos externos na idéia desenfreada de encontrar-me, quem sabe, lá pela 17ª pessoa. Ainda com reticências, que, apesar da inconsistência do português, me aprazem mais (por enquanto).
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Clap clap clap
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