14 agosto, 2008
A Morte
Tenho fixação pela morte. Talvez até mais metafórica que real. Ando acreditando quase que firmemente na idéia de que não há nada depois do nosso clássico último suspiro. Escuro, noite eterna, estado de inconsciência, visto por uns como absurdo, pois, depois de tudo que vivemos, lutamos, apanhamos, sofremos, amamos, vamos cair no nada? E por outros: qual nada se viver já foi tão tudo?
Enfim, tenho fixação pela idéia da morte, acho. Já fui pseudo-católica. Pseudo, pois na minha ignorância eu julgava quase correto ser católico. Isso há 20 anos atrás. Nem ‘pai nosso’ eu sabia rezar. Entrei no Colégio São Paulo e rolava uma reza diária no pátio. Eu balbuciava qualquer coisa, fingindo rezar, até que aprendi o tal “estais no céu”. Depois, me tornei ‘semi-espírita’. Disse isso na minha primeira consulta com a psiquiatra atual e ela anotou: “semi-espírita”. Juro. Trabalho num lugar onde as pessoas acham quase “errado” ir ao psicólogo... psiquiatra então é coisa de Galba Veloso. Enfim. Faço terapia há anos e vou ao psiquiatra. Signifique o que isso significar.
Tenho então, quase mania de morte. É como se enfrentasse diversos fins. Talvez eu não entenda que os fins simbolizam vida, talvez eu ridicularize metáforas, hipocrisie simbolismos. Adoro inventar palavras. Talvez seja a morte. Eu mato o português.
Seria um desperdício a gente perder a consciência quando morre. Seria um verdadeiro grand finale. Nos cagamos todos, sai merda e fluidos por todos nossos poros quando a gente morre. Imaginem só que coisa, depois de julgarmos o outro, depois de dizermos verdades, depois de fazermos sinal da cruz ao passarmos por igrejas, ironizarmos comportamentos sexuais alheios, fingirmos não gozar, fingirmos gozar, esvaziarmos contas bancárias, votarmos mal, esquecermos os nomes dos eleitos e depois encher os pulmões para proliferar abobrinhas sobre os motivos pelos quais o país não vai pra frente, depois de usar tantas vírgulas, de escrever assim sem nexo, de nem sequer julgar capacidades de escrever, as minhas, não sei escrever nada mais, todos os dias penso em deletar o blog. Olha aí a piração com morte. Matar. Quando eu era muito pequena, eu matei um peixe. Pode parecer tolo, mas eu peguei aquela redinha, levantei o peixe do aquário e fiquei a observá-lo perdendo a respiração até morrer. A escrita pode ser reveladora. Acho que acabei de descobrir os fundos psicológicos da minha psicose por respiração, sou viciada em Sorine, detesto que respirem encostando-se à minha pele, tenho pavor, horror de ficar sem ar. Será que é porque quando eu matei aquele peixe eu não sabia que ele precisava da água e hoje eu sei? O Kiko Goifman vai lançar um filme novo, “Filmefobia”. Ele vai usar não-atores fóbicos, atores fóbicos, não-atóres não-fóbicos. Se eu participasse, seria o sufocamento a fobia maior. Enfim. Morremos. Vem o escuro, a ausência de cor, “puf”, nada. Que desperdício. Imaginem observar-se cagando, soltando gases, algodão no nariz, tampões lá embaixo onde nosso puritanismo não nos deixa dizer. Seria, talvez, nossa maior oportunidade de crescer.
Enfim. Tenho deixado de acreditar em Deus, deus. Religião não faz muito sentido mesmo. Acho que acredito na arte, mas se eu estiver me iludindo, se for errada a minha relação com a arte, se eu não amá-la de verdade, não sobra nada de mim. Nem a caganeira pós-último-suspiro. Não sei se há sinais. Se isso significa que existe algo além. Fato é que tenho vizinhos que tocam violino. Eu adoro violino. Comecei a ouvir música clássica diariamente, o tempo inteiro no trabalho. Assim eu ouço menos o que não quero ouvir, assim eu acalmo, assim atinjo lugares mais nobres. Às vezes eu chego do trabalho e eles estão tocando, treinam todos os dias. Moram a dois andares abaixo de mim. Eu nunca os havia visto. Às vezes fico na janela do banheiro – que dá pra ouvir melhor – um bom tempo ouvindo o violino dos vizinhos. Lindo, lindo. Quando eu chego, costumo sorrir pra porta deles. Galba Veloso retornando. Eles têm uma maçaneta bonita na porta, reparei outro dia. Subindo as escadas fico pensando em como eles são, como se a música deles evocasse algo puro, como se não pudesse haver maldade em pessoas que tocam tão bonito. Fiquei sabendo pela menina que mora comigo que é um casal, que são estrangeiros (ela não sabe de qual país), que todos do prédio reclamam deles, pois tocam o dia inteiro. Outro dia pensei em um roteiro, em um filme sobre (sem ser sobre) isso. Um filme meio poético, meio imagens, meio sem explicar direito, sobre isso. Coisa ridícula, pensei logo depois. Há dois meses eu fantasio sobre o casal do violino. Um dia cheguei chorando e pensei no devaneio: que vontade de tocar lá, que vontade de descobrir que há algo além, sentar no sofá e ouvi-los tocar. Eles não questionariam, abririam a porta, me veriam chorar, eu sentaria e eles tocariam. Então eu pensei que os veria quando menos esperasse, pois as coisas geralmente são assim. Ontem tive um surto emocional, mais um pra coleção. Olhar pro espelho, ver-se ridículo, acho que ando cagando pelos poros há 28 anos. Só que agora eu tenho sentido o cheiro da merda. Ontem, chorando, naquele fanatismo pela morte, pelo escuro, pelo nada, pára um táxi na porta do meu prédio. Do outro lado, sai um rapaz. Do lado que eu tinha melhor visão, sai uma moça de rabo de cavalo. Quando ele dá a volta pelo carro, vi que carregava uma maleta de violino. E eu ali chorando, sem ter como explicar, como dividir aquele momento. Eu vi o casal do violino, no ápice da minha choradeira, lamúria, dessa pessoa tosca que escreve aqui. Um casal normal, nem deram as mãos, aliás, nem sei se namoram. Entraram no prédio e eu fiquei a chorar do lado de fora, num sorriso interno quase enganoso, que dizia: será que isso é algum tipo de sinal? Será um sopro qualquer dizendo: “fica viva”.
Eu tenho mania da fonte verdana, 10, justificado, espaçamento 1,5cm. Isso morreu também.
Me matei ontem. Matei-me ontem. Morri-me-dentro. Simbólico, metafórico, eu precisava da morte de alguma forma.
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2 comentários:
Extraordinário, prum dia ordinário.
pois eu acho que eles não questionariam, abririam a porta, a veriam chorar, você se sentaria e eles tocariam. acho mesmo!
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