
O relógio bateu onze horas. Primeiro que essa idéia de “relógio bater”, acredito eu, está atribuída a relógios-cuco, daqueles difíceis de se encontrar hoje em dia, que não “marcam”, mas badalam. Há alguns anos badalava-se. Hoje, balada-se. Afora os saudosismos de tempos em que ou os valores eram menos invertidos ou as pessoas atuavam melhor no sentido de disfarçar sua mediocridade, o relógio bateu onze horas. Ou 23, se soar melhor. Era noite.
Havia objetos espalhados de uma forma curiosa pelo ambiente. Com as luzes apagadas, o que havia de iluminação vinha da rua, deixando sombras pelo chão e paredes, que certamente aguçavam uma inspiração insone à procura de sentido. Uma mulher notou que não se envergonhava em absoluto de chegar a um ponto onde seus cabelos, no fundo, seriam da mesma cor de qualquer outra pessoa envelhecida. Eles, os cabelos, já grandes, estavam soltos, amontoados em sua cabeça e agora caberia bem uma frase de efeito como “feito toalha molhada em cima da cama”. Os cabelos estavam soltos e amontoados em sua cabeça. Ela ficou nua, totalmente nua, pelada, em pêlo. Há diversas formas de dizer as mesmas coisas e é incrível como certas escolhas soam mais solenes. Só pelo uso da palavra solene.
Sobraram três pedaços de bife do jantar. O fogão foi aceso, o óleo espalhou-se devagar na frigideira e aos poucos soava o barulho que evocava a chegada de um complemento. Veio a cebola, o tempero. Pequenos pontinhos de gordura, uns visíveis, outros não. O cheiro até que foi bom, os bifes poderiam ficar ao ponto, mal passados ou muito bem passados. Três bifes sobraram.
Há peixes que sobrevivem mais que os outros. Os do fundo do mar, menor idéia.
Foi feito um corte profundo no alto do crânio. Analisaram partículas, membranas, veias, estancaram o sangue com algodão e muitas ferramentas foram usadas. Tocava Led Zeppelin e uma das enfermeiras estava especialmente sensual. Parecia transitar por aquele território tenso como se pisasse em flores num comercial de perfume. Pegava a pinça com cuidado, observava cada detalhe, como se dançasse ali, se coordenasse um bailado fúnebre por um ambiente que parece carregar o peso dúbio vida/morte a qualquer momento.
Depois de tocar a campainha três vezes, abriram a porta e toda aquela ostentação esperada. Mulheres excessivamente maquiadas; não fosse trepar com uma delas e suar a noite toda, jamais saberia como é qualquer rosto ali à paisana. Enquanto tentava cobrir o humor ácido, notou que o nó de sua gravata denotava seu talento patético de embonecar-se como pede a elegância exigida para pertencer naquele ambiente. Tratou de virar um copo de uísque, disfarçando cuidadosamente o ato enquanto observava atento a um quadro que parecera ter sido pintado com as nádegas da belíssima emergente que o mandara pendurar na parede. Uma das máscaras coloridas da noite se aproximou e balbuciou uma merda qualquer, esforçando-se num sorriso que deve ter sido treinado cuidadosamente todos, todos os dias. Sua vontade ali era dizer algumas verdades, na ilusão delas existirem e de poderem gerar qualquer reação que não aquele ar rarefeito provocado pelas presenças que – além do peso das máscaras – nada teriam para oferecer. Depois do terceiro copo de uísque, resolveu dizer duas coisas: uma, impronunciável, e a garota cujo blush-pó-compacto-rímel-n ele já cogitava tirar pela madrugada saiu com uma feição que ele não sabia se de excitação ou profundo desconhecimento do que ouvira. Fato é que debandou. Depois, ele disse: “foi certamente a melhor das prerrogativas, aquela. Descobri, de sobressalto, o imenso poder que eu poderia ter nas mãos, soubesse eu...” e saiu, esquecendo-se de devolver o último copo de uísque.
Um comentário:
Até que valeu a pena perder todos aqueles textos, agora vc está escrevendo de novo!
Gostei muito do seu texto narrativo, continue! Escreva um conto!
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